O destino não deixou  que um garoto de 14 anos embarcasse no voo que terminou na trágica morte do cantor de tango Carlos Gardel. Se se assim não fosse, o mundo teria se privado da genial revolução musical do argentino Astor Piazzolla.

Muitas vezes o destino faz das suas, mas nem sempre para o mal.

Astor Piazzolla (1921-1992), o maior compositor argentino contemporâneo e o grande renovador do tango, por pouco não morreu junto com Carlos Gardel, o mais famoso cantor do gênero, falecido em 1935 em um desastre de avião na Colômbia, no final de uma excursão.

Mas o destino quis que Piazzolla – um molecote ainda, e que nem havia se iniciado profissionalmente na carreira artística – não participasse daquela turnê, mesmo tendo sido convidado e, logicamente, aceitado (quem não aceitaria?).

Na verdade, toda a história parece ter sido tirada das Mil e Uma Noites.
Recuemos para os Estados Unidos da década de 1930.
Nascido em Mar del Plata, filho de imigrantes italianos, Piazzolla foi aos 4 anos com a sua família viver em Nova York, em busca de melhores condições de vida. Demonstrando desde muito cedo um ávido interesse pela música, em 1929 Astor ganhou de seu pai, Vicente, o seu primeiro bandonéon, e em 1933 começou a tomar aulas de piano com Bela Wilde, pianista húngaro discípulo de Rachmaninov.

Astor Piazzolla é o garoto que aparece junto a Carlos Gardel no filme El dia que me quieras, de 1934.

Um ano depois conheceu Carlos Gardel. O cantor estava protagonizando mais um filme em Nova York pela Paramount – o “El día que me quieras” – quando recebeu a visita de um garoto de 13 anos. Era Astor Piazzolla. O garoto levava um presente do pai para Gardel, uma escultura de madeira de um homem tocando violão (o instrumento de Gardel) e um convite para comer raviólis em sua casa.

Surpreso e encantado com a inusitada visita, Gardel acabaria não apenas indo comer raviólis na casa da Família Piazzolla como convidou Astor para participar do filme. Nele, é possível ver o futuro bandoneonista, compositor e maestro atuando como um garoto entregador de jornais.

Gardel se tornou amigo dos Piazzolla, e voltou outras vezes ao modesto apartamento da família, que ficava no que é hoje o bairro boêmio do Village, para comer raviólis. Enquanto isso, Astor tornava-se uma espécie de seu guia e tradutor em Nova York, levando o cantor, que era um gourmet juramentado, especialmente às cantinas do bairro italiano.

Naturalmente, a amizade dos dois também resvalaria para a música. Astor mostrou a Gardel os seus dotes de bandoneonista, recebendo duras lições sobre a maneira de tocar. Gardel achou que o jovem Piazzolla tocava bandonéon de uma maneira “pouco argentina”. O que era compreensível. Astor passara quase toda a infância em Nova York, estudava com professores de extração erudita e costumava tocar com alguns amigos judeus que eram apaixonados pelo jazz.

De qualquer forma, Gardel apostou em Piazzolla. Um tempo depois, já em 1934, Gardel convidaria Astor para participar de sua trupe, que ia fazer uma turnê pela América Central, Venezuela e Colômbia. Era uma oportunidade de ouro para um garoto que já queria então seguir a carreira artística – começar, simplesmente, acompanhando Gardel numa excursão! Claro que ele aceitou o convite.

Mas só que o pai não deixou.

Carlos Gardel e sua trupe no avião que viria a se acidentar e matar todos a bordo.

Vicente (chamado de “Nonino”) achou que Astor era ainda muito novo para encarar uma viagem como esta, e que ele também não podia deixar a escola. Decretou que pelo menos desta vez Astor não viajaria.
Nonino não podia saber, mas a decisão salvou a vida do seu filho.
Gardel partiu com a sua comitiva e sem Piazzolla. Quase no final da excursão, em Medellín, na Colômbia, o cantor – e todos que estavam junto com ele, inclusive Alfredo Le Pera, o seu parceiro em “Por Una Cabeza”, um verdadeiro hino ao turfe e uma das músicas mais conhecidas do cantor – morreram em um acidente de avião.

O avião em que Carlos Gardel viajava e caiu em Medelin, Colômbia.

Astor Piazzolla ficou com os pais por mais alguns anos em Nova York, estudando música e aprendendo idiomas (voltou para a Argentina sabendo falar fluentemente inglês, francês e italiano).

Túmulo de Carlos Gardel, em Buenos Aires.

O início de sua carreira foi adiado por alguns anos. Em compensação, se tivesse viajado com Gardel, ela teria tido a duração de um suspiro. E o mundo não disporia hoje de clássicos como “Adiós Nonino”, “Libertango” e “Balada para un loco”.

O destino conspirou, sem dúvida, a favor de Piazzolla e do tango.

Astor Piazzolla – foto Carlos Ebert

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