Conto do vigário é pouco

O estelionatário que conseguiu vender a Torre Eiffel como sucata nos anos 1920

Repleta de histórias, a velha Torre Eiffel, uma das glórias da engenharia francesa e o mais icônico símbolo de Paris, tem uma que nem todos os franceses gostam de lembrar. O que é bastante compreensível. Afinal, a torre foi protagonista, na década de 1920, do que é considerado o maior “conto do vigário” de todos os tempos.

Foi um golpe similar àqueles aplicados antigamente em São Paulo e no Rio de Janeiro, em que espertalhões “vendiam” o Viaduto do Chá e o Pão de Açúcar para caipiras deslumbrados. Porém, muito mais sofisticado e que envolveu, diretamente, empresários do ramo metalúrgico e, por vias tortas, o próprio governo francês.

Victor Lustig

O personagem principal desta trama foi um tcheco de alta classe, Victor Lustig, nascido em 1890 na antiga Boêmia, então pertencente ao Império Austro-Húngaro, e que, apesar da ótima formação – fora educado nas melhores escolas e era fluente em várias línguas – dinheiro, mesmo, não tinha nenhum. Lustig pôs na cabeça que tinha de enriquecer de qualquer maneira. E com o seu dom para a trapaça e seus excepcionais dotes de ator, quase chegou lá, graças à belíssima torre de metal.

Lustig começou cedo a sua carreira de estelionatário chique, usando seu charme e sua lábia para ganhar dinheiro fácil com jogos de cartas, corridas de cavalos e negócios imobiliários. Dentre seus golpes mais conhecidos, está o da impressora de notas de US$ 100. Ele garantia aos incautos (aliás, tão mal intencionados quanto ele) que a engenhoca levava seis horas para imprimir cada cédula. No final das contas, depois de várias tentativas, da máquina saía apenas papel em branco. Mas, a essa altura, Lustig já estava bem longe.

Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-18), ele dedicou-se principalmente a aplicar golpes em transatlânticos que faziam o percurso Paris-Nova York. Lustig se deu muito bem nos Estados Unidos – conta-se que trapaceou até o próprio Al Capone. Mas, embora a aventura americana tenha lhe forrado os bolsos, ele ainda achava pouco. E voltou a Paris em 1925, disposto a resolver a vida de vez.

No entanto, como a vida não é feita só de trabalho, “Monsieur Comte Lustig” – como gostava de ser chamado – passou alguns meses esbanjando a sua fortuna em bares, restaurantes e lojas de luxo, até ficar praticamente só com a roupa do corpo. Agora, era imperativo ter alguma ideia. E esta lhe veio depois da leitura de um jornal.

Austeridade

A França saíra arruinada da Primeira Guerra, e Paris era um dos locais mais afetados – a administração parisiense, na verdade, não tinha dinheiro para quase nada e procurava por todos os meios cortar gastos. No artigo que inspirou Lustig, o jornalista criticava os altos custos de manutenção e conservação da Torre Eiffel, que a seu ver eram incompatíveis com aquele momento de dificuldade. Ele terminava o artigo sugerindo que o melhor seria desmontar a torre e vender as peças por quilo.

Diga-se que essa ideia, à época, não parecia tão extravagante assim. A Torre Eiffel fora construída para a Exposição Universal de Paris de 1889 como uma espécie de cartão postal do grande evento, e não havia a menor intenção de que ela se tornasse permanente. O objetivo era que ficasse no local de origem até 1909 e depois fosse removida para outro lugar ou desmontada. Muitos parisienses eram a favor do desmanche, pois viam a torre como um artefato totalmente estranho ao cálido estilo arquitetônico da cidade. Mas os anos se passaram e a torre acabou ficando, embora em estado de contínua deterioração, por falta de maiores cuidados de manutenção.

“Ótima sugestão. E serei eu que venderei essa torre”, comemorou um eufórico Lustig após a leitura do artigo. Começou a colocar o seu plano em prática já no dia seguinte. Ele e um cúmplice americano, Dan Collins, forjaram identidades e documentos falsos, num dos quais o primeiro-ministro da França e o presidente da república, Gaston Doumergue, autorizavam a dupla a vender as 7 mil toneladas de ferro da torre, por lance secreto, como sucata de luxo, por assim dizer.

Não pararam por aí. Para dar mais credibilidade às negociações, eles alugaram uma suíte no majestoso Crillon, hotel localizado perto da aristocrática região de Champs-Élysées e do Museu do Louvre. Ali instalado, Lustig então convidou seis grandes comerciantes de sucata para uma reunião secreta, apresentando-se como representante oficial do governo e anunciou a proposta. Evidentemente, esclareceu que a ele tinha sido dada a difícil incumbência de selecionar os possíveis interessados.

Os passos seguintes do golpe prosseguiram neste ritmo de filme de aventuras. Lustig e seu comparsa levaram depois os seis empresários em luxuosas limusines para uma “visita técnica” à torre, já que um deles seria, em breve, o novo proprietário dela. Conta-se que os dois meliantes foram tão convincentes na visita que até os empregados da torre acreditaram serem eles verdadeiros representantes do governo.

As propostas não tardaram a chegar. A melhor, no entender de Lustig, foi feita pelo comerciante de sucata André Poisson, que se mostrou tão ansioso para comprar as peças da torre que acabou vitimado por um golpe suplementar e não planejado por Lustig. Diante da ânsia de Poisson, para quem esta compra finalmente iria situá-lo entre os maiores empresários do ramo, Lustig decidiu pedir uma comissão extra para ajudá-lo a ganhar a concorrência.

O curioso é que este pedido de suborno deu maior credibilidade ao plano de Lustig. De fato, a própria esposa de Poisson já manifestara desconfiança de que havia algo errado no empreendimento, devido ao seu caráter meio “top secret” e pela rapidez com que as coisas se desenrolavam. A propina foi o sinal, para Poisson, de que estava mesmo diante de um funcionário corrupto – algo bastante comum na Europa de então, e mais ainda em grandes negócios como aquele -, disposto a aceitar a oferta de uma boa quantia em troca de preferência na compra. Era a garantia de que estava tratando com uma pessoa séria e de que tudo acontecia “dentro dos costumes”.

O negócio então foi fechado. Lustig e Collins, além de receberem a bolada correspondente ao projeto de desmonte da Torre Eiffel, ganharam ainda uma bela sacola de dinheiro à guisa de suborno. Não ficaram esperando em Paris o desenrolar dos acontecimentos. Tomaram apressadamente um trem para Viena, na Áustria, enquanto Poisson quase tinha um enfarte ao buscar, na prefeitura parisiense, as planilhas de trabalho para começar a operação de desmonte e recuperação do ferro da torre. Só então descobriu que tudo não passara de uma armação. Poisson sentiu-se tão envergonhado que nem sequer compareceu à polícia para dar queixa.

Mas a história da torre não acabou aí. Quando Lustig e Collins, ainda em Viena, perceberam que a “venda” não tinha sido noticiada nos jornais, decidiram voltar a Paris para tentar aplicar o mesmo golpe no segundo interessado da lista. Mas aí o “timing” já passara. O homem desconfiou e os denunciou à policia. No entanto, Lustig e Collins conseguiram escapar, pegando um navio para os Estados Unidos.

Ficha de Lustig, de 1931, quando procurado pelo FBI.

Lá, Victor Lustig prosseguiu no ramo de trapaças, embora de menor monta, até que em 1935 foi preso em Nova York. Mas antes de mofar na cadeia, ainda aprontou mais uma. Exatamente um dia antes do seu julgamento, conseguiu fugir com uma corda feita de vários lençóis, conhecida no Brasil como “teresa”. Mas ele acabaria capturado alguns dias depois. Condenado a 15 anos de reclusão na ilha de Alcatraz, Lustig morreu em 11 de março de 1947, de pneumonia, triste e amargurado.

Torre polêmica
Diga-se que a Torre Eiffel – inaugurada em 1889, no ano do centenário da Queda da Bastilha e do início da Revolução Francesa – foi durante décadas objeto de polêmicas e ciumeiras, e demorou para ser benquista pelos próprios franceses.

O monumento foi construído para servir como símbolo da Exposição Universal de Paris, mas o ano escolhido para a exposição e o tamanho descomunal da obra não deixavam margem a dúvidas: a França igualmente queria mostrar ao mundo que era também uma grande potência industrial e de engenharia, no mínimo equivalente à Grã-Bretanha, Estados Unidos e Alemanha.

Torre Eiffel durante a Exposição Universal de Paris. 1889

O monumento foi construído para servir como símbolo da Exposição Universal de Paris, mas o ano escolhido para a exposição e o tamanho descomunal da obra não deixavam margem a dúvidas: a França igualmente queria mostrar ao mundo que era também uma grande potência industrial e de engenharia, no mínimo equivalente à Grã-Bretanha, Estados Unidos e Alemanha.

Todo o conjunto levou dois anos para ser construído pelo escritório do engenheiro Gustave Eiffel, cujo projeto foi escolhido depois de uma licitação pública que reuniu 107 concorrentes. Eiffel tinha a seu lado os engenheiros Maurice Koechlin e Emile Nouguier e o arquiteto Stephen Sauvestre, que na verdade foram os autênticos projetistas da torre. Embora tenha impressionado os encarregados da seleção, o projeto de Eiffel logo seria alvo de críticas, que

Caricatura de M. Eiffel

Muitos detratores consideraram a torre como uma ameaça à estética da cidade, e alguns artistas chegaram a enviar ao governo francês uma “Carta de Protesto contra a Torre do Sr. Eiffel”. Segundo eles, uma torre de ferro erguida em pleno Campo de Marte, no coração de Paris, contrastaria repugnantemente com a elegância e a beleza refinada da cidade. O poeta Paul Verlaine até apelidou a Torre Eiffel de “esqueleto de Beffroi” para realçar a aparência, no entender dele, pouco graciosa do monumento.

De qualquer forma, estava combinado que a torre seria uma instalação provisória e seria desmontada em um prazo de 20 anos. Isso acalmou os críticos. O problema é que o desmonte nunca aconteceu, tanto pela crescente popularidade da torre – que com o tempo se tornaria a principal atração turística da França – como pela oposição daqueles que viam na desmontagem um enorme desperdício financeiro.

De fato, a construção da Torre Eiffel – que, no fundo, não passa de uma imensa estrutura treliçada de ferro com 18 mil peças e a princípio com 324 metros de altura – consumiu recursos da ordem de 8 milhões de francos, uma fortuna na época. Gustave Eiffel teve também um papel determinante para que a torre não fosse destruída, pois se empenhou para provar a utilidade científica dela, ao multiplicar as experiências científicas em domínios como a astronomia e a fisiologia.

Ajudou ainda a salvar a torre a sua utilização como antena de rádio, utilizada inicialmente para as comunicações militares e, em seguida, para uma comunicação radiotelegráfica permanente, que se mostrou bastante útil na Primeira Guerra Mundial. Mas, ainda na década de 60, havia quem quisesse se livrar dela. Em 1960, o então presidente francês Charles De Gaulle quis “emprestar” a Torre Eiffel para o Canadá, supostamente para uma exposição temporária. Mas o plano acabou rejeitado.

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